Imagens de um mundo em suspensão: pinturas de Raul Leal



Por Ivair Reinaldim

No século XIX, europeus viram-se encantados pelas xilogravuras coloridas japonesas, as ukiyo-ês, cuja expressão significa “retratos do mundo flutuante”. Essas estampas simbolizavam imagens do cotidiano, imobilizadas no corte incisivo da madeira, e talvez guardassem o espírito cambiante justamente naquilo que as caracterizava enquanto exemplares de crônicas visuais num dado contexto histórico. Cabe logo ressaltar, no entanto, que as pinturas de Raul Leal não possuem uma relação direta com tais gravuras, como o que ocorreu, por exemplo, com os impressionistas e pós-impressionistas. Se uma aproximação de fato puder ser estabelecida, a mesma encontra-se no modo como o ambiente urbano é representado nas proposições visuais do artista, uma vez que suas formas parecem estar em constante suspensão – ou num equilíbrio sutil, prestes a se desestabilizarem –, mergulhadas numa temporalidade lenta, fluida e movediça, o que em si reforça a ênfase literal sobre uma possível aparência flutuante das imagens que essas pinturas sustentam.

 

Raul Leal elimina qualquer aspecto efervescente das cenas que concebe, sejam elas ocorridas numa praça, praia, avenida ou shopping Center, espaços tradicionalmente relacionados à dinâmica dos encontros e à potência das ligações interpessoais. Particularidade da sua ampla produção pictórica encontra-se no fato de que essas séries de trabalhos representam cenas congeladas – muitas vezes desabitadas ou com pouca evidência de presença humana – em íntima relação com sua gênese: o índice fotográfico. O artista captura imagens, enquadra-as, elege-as em meio à miríade de possibilidades oferecidas nas suas diligências visuais por esses espaços de predileção. Em seguida manipula, depura, recorta, modifica os ‘códigos’ fotográficos através dos ‘códigos’ dos softwares de edição. As evidências que aproximariam a imagem de seu referente passam então a ser completamente atenuadas, transformadas em parâmetro idealizado de paisagem, em substrato conceitual para a realização de cada projeto de pintura. Nesse trabalho de edição, o que interessa a Raul Leal é que a cena representada passe a existir enquanto espaço pictórico, embora mantenha na fina espessura da tinta aquela bidimensionalidade característica da imagem fotográfica, seja na sua impressão sobre a superfície do papel, seja na exibição no monitor do computador.

 

Nessas pinturas de superfície, tão delgadas quanto a espessura da fotografia e a espessura da estampa, os campos um pouco mais densos de cores constituem o conjunto de fragmentos que dão forma às coisas – às vezes mais dependentes do referente, outras, completamente autônomas –, partes que se relacionam entre si, articulam-se de modo a constituir uma imagem maior, insinuando, de algum modo, a possibilidade de reconstrução da cena capturada. Juntas, essas ‘formas’ movem-se lentamente, deslizam sobre um ‘fundo’ movediço, ralo, em que o pigmento agora aquarelado escorre de modo fluido pela superfície da tela. São nestes procedimentos mais acidentais, pouco controlados, em contraste com a precisão e constância das partes em evidência, que se desvela uma temporalidade lenta, representando o caráter efêmero tanto das coisas em si quanto do modo como são apreendidas subjetivamente. Essas imagens reforçam a impressão de vida em suspensão, de um mundo à espera da confirmação de sua existência. Elas vivem na imanência de existir para além de sua mera condição visual.

 

ARQUIVO CONTEMPORÂNEO IPANEMA

seg a sex 9h às 19h  |   sáb 10h às 14h

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